Albano_Nunes.jpgTranca line é a designação atribuída a todos os jovens Oficiais da Marinha Mercante, em início de carreira.

Sem ter direito a nada, cujo estatuto que se lhe aplica, é muito mais abaixo ao de cão, começa por verter suor, e por vezes  lágrimas, muito antes de poder ter voto na matéria. Também é um facto que era preciso que se passasse algum tempo, para ter direito a "botar" palavra, o que era conseguido, depois de algumas "banhadas", "necadas" e suportar pavorosas contas de bar.

Tal era a "confiança" depositada nos seus superiores hierárquicos, que garbosamente exibiam a requisição de bar, por si assinada de livre vontade em branco.

É uma tradição, pelo que há que "aguentar", pois todos os outros, anteriormente também aguentaram…

Os poucos que não aguentaram veriam ali terminadas as suas carreiras por antecipação…

E daí, a passagem pelo Equador - o pagamento do tributo a Rei  Neptuno na cerimónia do baptismo -  essa linha imaginária, mas sempre visível  nas lentes dos binóculos, quando que era necessário.

Também o correio na Bóia de Stª Ana, a conta de consumo da Energia Eléctrica, para já não falar nas chamadas "internacionais" a preço de saldo, através da rede de telefones internos, para os familiares,  bem longe do navio, para sempre ficarão nas nossas mentes.

Pequenos escritos, como estes, em nada vão mudar o que por lá se passou.

 

Mas há que perpetuar a tradição, admitindo-se as mudanças, por mais sofisticadas e modernizadas, fruto dos tempos e das mentalidades.

Mas também nada se perde, se deixar algo mais escrito, do que simples lembranças mesmo sob a forma conto, de romance, ou prosa de simples ficção.

Mas o  Tranca line mito ou realidade está dentro de cada um de nós.

Porque nós o fomos!

A sua designação, materializada na carreira profissional de cada um - Oficial da Marinha Mercante - acompanhar-nos-á  pela nossa vida fora, cujos efeitos conhecidos, ou bem "escondidos no tempo", bem podiam à dimensão dos dias de hoje, terem tanta ou igual relevância, como têm as crónicas do tempo de Vasco de Gama, ou de qualquer outro marítimo de facto e de direito.

Nem tudo foi mau, mas também nem tudo foi bom.

Os episódios que se seguem constituem por assim dizer, um misto de verdade, de romance à mistura com invenção pura, em que os factos e as personagens, algumas reais e outras inexistentes se entrosam no espaço e no tempo.

Tranca line aparece num momento, em que alguns, que serão referidos infelizmente já não o podem ler.

Para Alberto Costa e Lubélio Silva, o meu respeito e admiração, que com saudade recordo.

Para eles escrevo.